Considerando a história da Malveira e reconhecendo ter sido este – designadamente desde que D. Maria I autorizou, por provisão de 14 de Dezembro de 1782 a realização da feira anual que passaria, posteriormente a realizar-se também, semanalmente, à quinta-feira – um local centralizador da produção agrícola e pecuária para comercialização e, em consequência ter sido construído posteriormente, e funcionando durante muitos anos, o Matadouro da Malveira, é presumível a existência de gastronomia tradicional local.
Recordo que, em meados do século passado, muita gente se deslocava à Malveira, nos dias de feira, para sentir o enorme prazer de saborear a “dobrada com feijão branco”, a “mão de vaca com grão (meia unha)”, o “caldo verde”, as “trouxas da Malveira” as “iscas com elas”…
Neste local procuraremos divulgar as receitas que nos sejam enviadas e estejam relacionadas com a nossa região.
Orlando Soares Faustino
Há quem diga que a receita tem origem ribatejana e eu respeito a opinião. Talvez tenha imigrado para a Malveira pois desde que me lembro, e esta recordação vem dos anos cinquenta do século passado, era um dos pratos que, pelo menos nos dias de feira, faziam parte da ementa de todas as tabernas da Malveira.
Se imigrou, tornou-se uma ementa adoptiva da nossa terra e, por isso, aqui apresentada. Chamavam-lhe “Meia-unha” pois era servida metade da mão de vaca em cada dose e, como sobrava sempre quantidade significativa das doses servidas, as cozinheiras passaram a retirar, após a cozedura e antes de guisar, parte da unidade – junto aos ossos – confeccionando de modo semelhante e passando a chamar-lhe “roubada”. Entende-se porquê!
Era uma forma de melhorar o rendimento …sem prejudicar os clientes.
Como o nome era agressivo, passaram, posteriormente a chamar-lhe jardineira.
Ainda hoje, décadas volvidas, há quem se desloque à Malveira nos dias de feira com o objectivo de saborear a MEIA-UNHA.
Preparação:
De véspera, deixa-se o grão a demolhar em água, lava-se e raspa-se muito bem a mão de vaca para retirar algum pelo que ainda exista e esfrega-se bem com sal e limão.
Coze-se o grão em água com um pouco de azeite e temperado de sal (entre 20m e 30m se for em panela de pressão) e, separadamente, a mão de vaca dividida em duas, em água temperada com sal (entre 45m e 1h se for em panela de pressão).
Refogam-se as cebolas e alhos picados em azeite bem como os tomates cortados em cubos (de preferência pelados e sem sementes).
Juntam-se as cenouras cortadas às rodelas, o chouriço de carne cortado do mesmo modo, a salsa e as folhas de louro.
Deixa-se apurar e junta-se a mão de vaca, rega-se com o vinho branco e um pouco do caldo de cozer o grão (se necessário adicionar mais caldo em função da consistência do molho). Pode juntar-se um pouco de molho picante conforme o gosto.
Pode ser acompanhado com arroz branco (opcional)
Mão de vaca com grão
A receita divulgada de seguida foi publicada no volume 3 de “Cozinha Regional Portuguesa” – são 4 volumes – cuja autoria é de Maria Odette Cortes Valente que fez uma recolha enorme de receitas tradicionais (não apenas doçaria), algumas delas já quase perdidas, através de investigação em inúmeras terras de todo o país.
Esta receita corresponde, na íntegra a uma que me foi pessoalmente oferecida por alguém que realizou investigação gastronómica no concelho de Mafra e que, na altura, me pediu sigilo sobre o seu nome.
Ingredientes:
Pudim de ovos da Malveira em forminha individual